Revolução Em Cuba - A Escola do Alentejo que Trocou os Livros por Tablets

Germano Bagão nem era adepto das tecnologias, mas foi-lhes ganhando o gosto. Há 21 anos, quando se tornou director da escola básica de Cuba, no Alentejo, uma das primeiras decisões foi já um prenúncio: resolveu o impasse com a televisão a cores na sala de convívio dos alunos. "Tinha sido instalada há um ano, mas dentro de uma caixa e fechada a cadeado. Os alunos não a podiam usar porque não havia regulamento." Foi nesses primeiros tempos que ganhou fama de "líder forte", ontem apontada como uma das razões para que a escola, das primeiras a ter um modem e a segunda a ter uma página na internet no país, tenha mais um feito tecnológico no quadro de honra. "Tirei o cadeado e as portas da caixa e pus um leitor de vídeo para que pudéssemos usar a televisão até como ferramenta educativa."

Foi o director que ontem falou em primeiro lugar à plateia de pais do 7.º ano do agora Agrupamento de Escolas de Cuba, atentos para perceber, afinal, o que é isso de os filhos deixarem de usar manuais escolares para descarregarem conteúdos para um tablet. "É um desafio: vão trabalhar muito mais do que quando usavam livros", prometeu Bagão diante do auditório cheio. A iniciativa começou a ser pensada há dois anos na Direcção-Geral de Estabelecimentos Escolares (DGEE) - Direcção Regional de Serviços do Alentejo. Depois de avaliarem qual a melhor forma de acabar com os manuais e tentarem perceber as vantagens pedagógicas, seguiu-se a procura de parceiros. A Porto Editora com os livros digitais, a Fujitsu com os aparelhos e a Universidade Católica como instituição que vai monitorizar e avaliar a experiência permitiram dar gás ao projecto.

Jorge Mata, que começou a carreira como professor de História na escola que ontem viu chegar os tablets e hoje está na DGEE, é um dos mentores do projecto, para já com o nome de código de "manuais digitais". Aos pais explicou que, por agora, a perspectiva é de cautela: vão arrancar progressivamente e, dentro de três anos, quando os alunos completarem o 9.º ano, será avaliado se é uma opção que, mais que reduzir o peso nas mochilas dos alunos, melhora o ensino: "Já houve muitas tentativas de introdução de tecnologia na sala de aula. Até hoje, o investimento ainda não colheu."

Miúdos tecnológicos A caminho de Cuba, num troço da nacional 387, a estrada cruzada por rebanhos e os campos de girassóis - isto para não falar da vila deserta a meio da manhã - fazem pensar numa revolução iminente. A ideia (preconceito) de que poderia haver qualquer tipo de choque tecnológico varre- -se com alguns minutos de conversa com os alunos do 7.º ano que vieram com os pais ouvir as instruções no primeiro dia de aulas. Muitos já tinham tablet, como Zé Luís, Rita ou Rodrigo.

No mesmo grupo, que legalmente não tem idade para usar redes sociais, só Maria não tem Facebook. "É a livros- -marrona", brincam, mas também reconhecem que é a melhor da turma, este ano 7.º B. Habituados a quadros interactivos nas salas e a ir à biblioteca mais para usar o computador do que para ler, nem a excitação de terem um novo aparelho os faz pensar que a escola vá ficar menos "seca". Que é preciso então? "Intervalos maiores", responde Margarida. "Televisão na sala com Sport TV e Disney Channel", acrescenta Rodrigo. A brincar, vão contando as verdades. Nas férias leram "0,00 livros". Pedro é o único que leu alguma coisa. Perguntamos o quê. "Li o livro de instruções dos legos", declara, brincalhão, do alto dos seus 12 anos.

Se vão aprender mais, não conseguem dizer. Se vão ficar mais distraídos ou alegar que estão a estudar quando estão a jogar ou a navegar na internet, são confissões que não se fazem a estranhos. Certo é que os encarregados de educação ganharam uma nova forma de os persuadir a dedicarem-se ao estudo: os alunos que chumbarem deixam de estar abrangidos pelo projecto-piloto, que acompanhará a geração hoje no 7.º ano até chegar ao secundário. O que significa, por outras palavras, deixar de ter tablet.

Esperar para ver Enquanto a escola apresenta o projecto, os pais vão cochichando. "Isto, lá fora, já é muito usado. Eu, sinceramente, gosto de sentir o papel", ouvimos de um pai. "E vai ser bonito, sempre a caírem ao chão." Um professor suspira e outro admite que vai ser uma confusão quando o director e os responsáveis da DGEE alertam para um novo dever de casa: o tablet só tem carga para um dia de aulas, vai ter de ser carregado diariamente sob pena de os alunos não terem livros para seguir as aulas.

De Elisa e Maria, alunas do sexto ano com uma certa inveja dos colegas mais velhos, ouvimos uma análise ponderada: "Vai ser mais divertido aprender. Pode distrair, mas também pode motivar mais." Maria de Fátima Rosado, de 46 anos, lamenta que a filha de 12 não tenha interesse pela leitura e esteja a perder clássicos que, na idade dela, já tinha lido, como o "Diário de Anne Frank". "Se não for a escola a incutir esse hábito, onde será?", questiona, lembrando uma estatística que fez no Verão. "Depois de andar um quilómetro na praia, contei dois livros. Não sou contra as tecnologias, mas acho que tudo é importante e eles já as usam. Mas hoje não lhe posso dizer como correu: só no final."

Duarte Martins, da DGEE, admite não haver certezas absolutas nesta fase: "Claro que podemos pensar que estão a estudar quando estão no Facebook, mas também para alguns será mais atractivo estudar pelo tablet." Para ajudar os pais a controlar o que se passa, umas das preocupações do projecto foi que todos os conteúdos educativos estivessem disponíveis offline. "Se antes podiam dizer que era hora de estudar e tirar o computador ou o telemóvel, agora podem tirar- -lhes a internet."

Por agora, a perspectiva é de que o projecto será mesmo piloto, com a Universidade Católica a avaliar o impacto quer na vertente de ensino quer de aprendizagem, além de ajudar a introduzir as melhores formas de protecção de conteúdos e segurança online. Vanda Marques, que seguirá a iniciativa no âmbito de uma tese de mestrado, admite que, para já, é o uso indevido que mais a preocupa. Por outro lado, caso haja vontade de escalar o projecto, será preciso avaliar qual o modelo de negócio mais adequado para Estado e famílias e qual o interesse dos parceiros.

Ser um programa gradual é algo que colhe apoio junto de pais, professores e técnicos. O contraponto, dizem, é o Magalhães. "Não era usado pelos professores como ferramenta educativa, pois não suportava muitos recursos. Teve coisas boas, como permitir a algumas famílias o acesso a computador. Mas, nos planos educativo e pedagógico, foi dinheiro deitado à rua", diz Germano Bagão. Duarte Martins também admite que o projecto deveria ter começado como experiência, em vez de distribuir milhares de computadores sem ajustar conteúdos e formação. "Hoje a utilização é residual", diz.

Os tablets serão, nesta fase, suportados totalmente pelo Ministério da Educação, mas a DGEE explica que não sai do Orçamento do Estado, uma vez que o projecto se enquadra numa iniciativa de modernização escolar financiada por fundos comunitários. Para os três anos, trata-se de um investimento na ordem dos 20 mil euros. Ainda assim, para responsabilizar famílias e alunos, será definido um seguro pelo uso do equipamento cujo valor "simbólico" ontem ainda não estava fechado. "Será seguramente mais barato do que eram os livros", anunciaram aos pais, que já pouparam cerca de 300 euros em manuais.

O director Germano Bagão espera que a Acção Social venha a comparticipar o seguro de famílias carenciadas, de acordo com os habituais escalões que apoiam a aquisição dos manuais escolares. Mas admite que vai ter de ser a tutela a decidir e, em caso negativo, a escola encontrará solução.

Em menos de meia hora, a pilha de tablets para alunos e professores vai baixando. Um, pelo menos, fica agora por entregar: em arranque escolar, ironia que o director reconhece, a escola ainda não tem professor de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). Até ao ano passado tinham uma professora efectiva, este ano colocada através da mobilidade numa escola mais perto da casa. Pensaram que podiam contratar um docente que fizesse esse trabalho mas também actividades de enriquecimento curricular, a meias com a autarquia.

Como a solução foi recusada pela tutela, só na sexta-feira lançaram o anúncio para um horário incompleto de 10 horas. "É óbvio que gostaria de ter já o professor de TIC, mas estamos cá e os alunos não hão-de ficar sem aulas até vir o colega." Para Bagão, saber se o projecto será um dia replicado a nível nacional é uma perspectiva que encheria a escola de orgulho, mas admite que financiar tecnologia de ponta para todos os alunos é um desafio considerável. Um desafio que já começou por terras de Cuba.

fonte: ionline (http://www.ionline.pt/artigos/portugal/revolucao-cuba-escola-alentejo-trocou-livros-tablets)

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